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Friday, May 4, 2012

O PALÁCIO DE INVERNO - John Boyne


                                   "Faz mais de sessenta anos que vi pela última vez algum parente de sangue. É quase impossível acreditar que cheguei a esta idade, oitenta e dois anos, e que passei com meus familiares uma parcela tão pequena do tempo que me foi concedido. Fui relapso em minhas obrigações para com eles, embora na época eu não enxergasse dessa maneira. Pois querer mudar meu destino seria como querer mudar a cor de meus olhos. As circunstâncias me levaram de uma coisa a outra, e depois a outra, e mais outra, como acontece com todos os homens, e dei um passo após o outro sem questionar. E então um dia eu parei. E estava velho. E eles tinham partido." (pg. 10, O Palácio de Inverno, John Boyne)

Até então não havia lido nenhum livro desse autor. E me surpreendi. A começar por esse trecho assinalado acima, que me deixou bastante inquieta: a efemeridade da vida. Começar o livro com uma afirmativa desse teor, já mostra sinais do conteúdo da história que seria lida. Nas primeiras páginas, pensei que não ia gostar muito... O achei um tanto depressivo. Mas acabei me envolvendo no estilo peculiar do autor e gostei do que li. O autor vai e volta na vida de Geórgui, trazendo ao leitor a infância e a vida adulta do personagem intercaladas nos capítulos.  

A vida de Zoia e Geórguie é contada pela perspectiva deste último, perpassando a Rússia do Czar Nicolau II e a Inglaterra do pós-guerra. A história gira, basicamente, em torno desses dois períodos. Ao salvar a vida do primo do czar, Geórguie é convidado a se mudar para o Palácio de Inverno, onde irá trabalhar como guarda-costas do filho do czar, Alexei. Ele se muda para Moscou e 'se esquece' de sua família de sangue, buscando uma vida melhor do que a que tinha na pequena vila de Cáchin. Desde sua chegada, ele se sente atraído por Anastácia, uma das filhas do czar. Toda a história está baseada nessa mudança de vida que desencadeia vários acontecimentos. Não posso adiantar muita coisa, pois acabaria por contar pontos reveladores da trama! Já na idade mais avançada de sua vida, Geórgui passa por uma experiência dolorosa, que é perder o grande amor de sua vida - Zoia - para o câncer.      

Sinceramente, não recomendo para pessoas que estejam um tanto... desanimadas ou depressivas! Como apontado abaixo nos trechos elencados, são várias passagens que relatam fatos da vida cotidiana mas que são, de certa forma, dramáticos e até desanimadores. Portanto leiam com alegria no coração!  

Mais informações sobre o livro no site da Companhia das Letras

Trechos interessantes: 

"Há momentos em que invejo a sua juventude, mas tento não me deter nisso. Um velho não deve se ressentir com os que vieram lhe tomar o lugar, e lembrar quando eu era moço, másculo e saudável é um ato de masoquismo que não leva a nada. Ocorre-me que, embora Zoia e eu ainda estejamos vivos, minha vida já acabou. Zoia me vai ser tirada em breve, e não haverá nenhuma razão para eu continuar sem ela. Somos uma pessoa só, vocês entendem. Somos GeórguieZoia." (pg. 23, Geórguie pensando em seu neto, Michael, filho de Arina)

"- Oh, não é o que você está pensando - respondeu abanando a cabeça - Não desta vez, juro. Só estou dizendo que, quando chegar a hora, e vai ser logo, não vou lamentar. Quando basta, basta, entende, Geórgui? Você nunca sente isso? Veja essa vida que vivi, e que vivemos juntos. Pense nisso. Como conseguimos sobreviver todo esse tempo? - Ela abanou a cabeça e soltou um longo suspiro, como se a resposta fosse muito simples e evidente - Quero que acabe, Geórgui. Só isso. Quero apenas que acabe." ( pg. 121, Zoia conversando com Geórgui sobre a vida)

"Irritabilidade. Petulância. Ansiedade. Desejo subconsciente de notar algo de errado em qualquer expressão que ela usasse. Necessidade de criticá-la, de fazê-la se sentir mal consigo mesma. Eu notava isso a cada vez que falávamos. E odiava o fato. Não era assim que devíamos ser. Devíamos nos amar, tratar um ao outro com respeito e gentileza. Afinal, nunca fomos Geórgui e Zoia. Éramos GeórguieZoia." (pg. 165, Geórgui pensando sobre a atual situação do relacionamento com Zoia)

"O táxi faz uma curva fechada à esquerda, depois à direita, e antes que eu me dê conta passamos pelo Museu Britânico. Olho os dois leões ao lado das portas e revejo minha hesitação ali, antes de entrar e conhecer o Sr. Trevors na manhã em que me entrevistou, a mesma manhã em que Zoia começou a trabalhar como costureira em Newsom. Faz tanto tempo, eu era tão jovem, a vida tão difícil, mas eu daria tudo para voltar àquele momento e entender a sorte que tive. Ter minha juventude e minha esposa, nosso amor e nossa vida diante de nós." (pg. 443, Geórgui, no momento em que Zoia falece e ele vai ao hospital)

Dados dessa edição:

BOYNE, JOHN. O palácio de inverno. Companhia das Letras: São Paulo, 2009.

Monday, March 5, 2012

O ENGENHOSO FIDALGO DOM QUIXOTE DA MANCHA - Miguel de Cervantes

"Eu cá não o digo nem penso - respondeu Sancho. - Eles lá que saibam as linhas com que se cosem, pouco se me dá: se foram amancebados ou não, a Deus terão prestado contas. Eu sigo o meu caminho, não sei de nada, não sou amigo de me meter na vida alheia, pois quem mexe em vespeiro, picado sairá. Tanto mais que nu nasci, nu estou: não perco nem ganho. Mas, se o eram, que me importa a mim? E nem tudo o que reluz é ouro. Mas quem pode pôr travas ao vento? Tanto mais que até de Deus murmuravam." (Sancho em conversa com Dom Quixote, p. 319 - 320)
Admito que a leitura foi um tanto enfadonha. Me propus a ler esse livro por ser um clássico literário. Mas, talvez pela própria época em que foi escrito, não me apeteceu muito. Foi demorado de lê-lo, e não me encontrava com muito ânimo de continuar lendo por muito tempo. Mas terminei. No final consegui 'relaxar' um pouco e rir das 'travessuras' e loucuras de Dom Quixote. Quem sabe o próximo volume se mostre mais interessante?

Enfim, o livro conta desde o início a história de Dom Quixote e Sancho Pança, com suas aventuras e desventuras pelas terras espanholas. Uma escrita, de certa forma, rebuscada. Mas vale a leitura para aqueles que apreciam livros dessa época - 1605, quando foi lançado o primeiro volume. O livro também pode ser caracterizado como uma sátira a literatura de cavalaria da época. Acompanhado por Rocinante, o Cavaleiro da Triste Figura - como também é chamado Dom Quixote - e Sancho Pança se envolvem em disparatados episódios que lhes custam  vários apuros. 

Apesar da minha simples e humilde opinião sobre o livro, em 2002 o mesmo foi considerado o melhor livro do mundo (mais detalhes aqui)! A edição que li é muito interessante, pois conta com várias referências de pé de página que explicam detalhes que passariam desapercebidos. Além disso, contém uma breve biografia de Cervantes.

Trechos interessantes da obra:

"Em suma, ele engolfou-se tanto em sua leitura, que lendo passava as noites em claro, e os dias em turvo; e assim, do pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro de maneira que veio a perder o juízo. Encheu-se-lhe a fantasia de tudo aquilo que lia nos livros, tanto de encantamentos como de pelejas, batalhas, duelos, ferimentos, galanteios, amores, desgraças e disparates impossíveis; e assentou-se-lhe de tal modo na imaginação que era verdade toda aquela máquina daquelas sonhadas invenções que lia, que para ele não havia outra história mais certa no mundo." (o narrador da história contando sobre Dom Quixote e o início de sua 'loucura', p. 54). 

"Eu sei, com a natural razão que Deus me deu, que tudo o que é formoso é amável; mas não consigo compreender que, em razão de ser amado, esteja obrigado o que e amado por formoso a amar a quem o ama. Mais ainda, poderia acontecer que o amador do formoso fosse feio, e, sendo o que é feio digno de ser aborrecido, mui mal seria o dizer "Amo-te por formosa: tens de amar-me ainda que seja feio". Mas, o caso de serem parelhas as formosuras, nem por isso hão de ser parelhos os desejos, porque nem todas as formosuras enamoram: algumas alegram a vista e não rendem a vontade; se todas as belezas enamorassem e rendessem, seria um andarem as vontades confusas e desorientadas, sem saber em qual haviam de parar, porque, sendo infinitos os sujeitos formosos, infinitos haviam de ser os desejos". (Discurso de Marcela sobre o suicídio de Grisóstomo, p. 179)

"Apesar disso, faço-te saber, irmão Pança - replicou D. Quixote -, que não há memória que o tempo não apague, nem dor que morte não elimine". (Dom Quixote em conversa com Sancho Pança, p. 193)

"Fica sabendo, Sancho, que nenhum homem é mais que outro, se não faz mais que outro. Todas estas tempestades que nos sucedem são sinais de que logo há de vir a bonança e hão de sair-nos bem as coisas, porque não é possível que o mal nem o bem sejam duradouros, e daí se segue que, havendo durado muito o mal, o bem já está perto. Assim, não deves afligir-te pelas desgraças que a mim me sucedem, pois a ti não te cabe parte nelas". (Dom Quixote em conversa com Sancho Pança, p. 230)

"Essa é a natural condição de mulheres - disse D. Quixote -, desdenhar quem as ama e amar quem as aborrece. Prossiga, Sancho. " (p. 250)

Dados dessa edição: 
CERVANTES, M. O engenhoso fidalgo D. Quixote da Mancha, vol. 1. São Paulo: Abril, 2010. 

Monday, January 16, 2012

A ILHA SOB O MAR - Isabel Allende

"Para lhe evitar preocupações e desgostos, aproveito suas ausências para me divertir à minha maneira - essa é a vantagem de ter um marido muito ocupado. Não gosta que eu ande descalça pela rua, porque já não sou escrava, que eu acompanhe Père Antoine e socorra pecadores no Pântano, porque é perigoso, nem que vá às bambousses da Praça do Congo, que são muito vagabundas. Nada disso eu conto a ele, e ele não me pergunta" (A Ilha Sob o Mar, Isabel Allende, pg. 476 - Zarité falando de seu marido, Zacharie) 
Isabel Allende conta a história de Zarité, uma escrava em Saint Domingue - hoje Haiti -, quando a colônia pertencia à França. A história se passa entre 1770 e 1810. Narrativa rica de detalhes, nos faz imaginar todos os fatos e personagens envolvidos. A autora divide a obra em dois blocos de tempo  e local distintos: o primeiro trata do período entre 1770 e 1793, em Saint Domingue e Cuba, enquanto o segundo retrata o período entre 1793 e 1810, na Louisiana. 

Além disso, a autora divide a narrativa em dois pontos de vista. Alguns capítulos são vistos como contados pela autora, ou seja, um narrador externo que conta a história; enquanto outros capítulos são contados pela própria Zarité, enfatizando seu ponto de vista e seus sentimentos sobre os fatos e as pessoas. Os capítulos se completam, e tornam a história mais clara. 

Zarité é filha de uma falecida escrava e, sob a posse de uma senhora, aos 9 anos é comprada para servir em uma fazenda à senhora Eugenia, esposa espanhola de um rico fazendeiro francês - Valmorain. Este chegou à ilha ainda com 18 anos, sem esperar que passaria toda sua vida dedicada às plantações de cana de açúcar e que delas tiraria o sua riqueza. Eugênia, após sucessivos abortos, deu a luz a Maurice, mas ela já sucumbia à depressão e outros transtornos, que a impossibilitou de cuidar do filho. Maurice foi criado como um filho por Zarité, que teve seu filho de sangue afastado de si pois era filho bastardo de Valmorain. Após alguns anos Zarité engravida novamente, dessa vez de uma menina, Rosette, que é criada junto com Maurice. Desde criança o amor entre eles floresceu, e durou até que a morte os separou. Com a guerra civil em Saint Domingue, Valmorain, Zarité e as duas crianças fogem para Cuba e, anos mais tarde, vão para Lousiana, recomeçar o cultivo da cana de açúcar. Nesse local, a vida recomeça para todos os personagens. 

É um livro, a meu ver, muito bom e vale a pena conferir. É uma leitura fácil e rápida, mas é um drama. Os sentimentos afloram em algumas passagens! É muito evidente o preconceito e o racismo que imperavam naquela época e que ainda deixam vestígios na sociedade moderna. Uma vez que o romance é mesclado de fatos históricos do país, entende-se um pouco mais sobre as origens do Haiti e o porque dos problemas sociais encontrados ainda hoje. Um blog interessante que tece uma discussão sobre esse aspecto histórico é O Grito!, vale a pena conferir. 

Além dos aspectos históricos, a narrativa resgata também costumes dos povos africanos, apresentando diferentes aspectos dessa cultura tão diferente, naquela época, da européia predominante. As diferenças culturais e de crença são pontos críticos explorados durante todo o texto. 

Abaixo os trechos que selecionei da narrativa:

"- Na Inglaterra e nos Estados Unidos também há quem questione seriamente a escravidão e se recuse a consumir os produtos das ilhas, em especial o açúcar - lembrou Parmentier.
- São em número insignificante, doutor. Acabo de ler, numa revista científica, que os negros pertencem a uma espécie diferente da nossa. 
- E como o autor explica que duas espécies diferentes tenham filhos? - perguntou o médico."
Diálogo entre Valmorain e Parmentier (médico da família). Pág. 92. 

"- Todos querem ser livres. 
- As mulheres nunca são livres, Tété. Precisam de um homem que cuide delas. Quando são solteiras, pertencem ao pai. Quando se casam, pertencem ao marido." Diálogo entre Valmorain e Zarité, sobre a liberdade dada por seu dono. Pág. 215.

"As duas compartilhavam a intimidade que costuma unir no exílio pessoas que jamais teriam trocado um único olhar se vivessem em seu lugar de origem." Sobre Violette e Adèle, em Cuba. Pág. 325.

"- ... Eu não sirvo para isso, senhor!
- Como você sabe? Todos nós temos uma reserva de forças inimaginável que emerge quando a vida nos põe à prova." Diálogo entre Maurice e seu professor Cobb, em Boston. Pág. 336. 

Dados dessa edição: 
ALLENDE, Isabel. A Ilha Sob o Mar. Bertrand Brasil, 2010.

Monday, August 29, 2011

EL REINO DEL DRAGÓN DE ORO - Isabel Allende

"Ninguno de los dos contaba las horas, porque el tiempo no les interesaba. El calendario es un invento humano; el tiempo a nivel espiritual no existe, le había eseñado el maestro a su alumno." (narrativa, pag. 9, El Reino del Dragón de Oro) 
Esse foi um livro interessante que trouxe alguns temas importantes. Mesclando os diversos ensinamentos do budismo, Allende conta a aventura vivida por Alexander, Nadia e Kate no Reino Proibido. Situado no meio dos picos do Himalaia, esse país segue uma cultura antiga e busca manter-se fora das influências ocidentais. Nesse país, o futuro rei é preparado por um monje budista durante anos, absorvendo aos poucos toda a sabedoria acumulada. 

Tensing é o monje que está ensinando a Dil Bahadur, o príncipe e futuro rei do país. Eles vivem nas encostas do Himalaia, longe das cidades, do conforto e da riqueza do palácio real. Já haviam passado 12 anos desde que o príncipe fora passado aos cuidados de Tensing para treinamento. 

Do outro lado do mundo, Kate, junto com Alexander, Nadia e sua equipe  do National Geographic, viaja para o Reino Proibido a fim de fazer uma reportagem sobre o país. Além dela, outras pessoas também estão interessadas no país e no lendário Dragão de Ouro, porém com intenções maliciosas. A trama se desenvolve em cima do encontro dos três 'grupos' de personagens, que passam por diferentes aventuras tentando salvar o Dragão de Ouro. 

Gostei mas não ameeeei! Não sei se porque li depois de Brumas de Avalon, mas a história não me deixou com aquela vontade insuportável de ler que eu sentia com o outro livro. Mas vale a pena. As pinceladas sobre o budismo são interessantes e estão inseridas no decorrer da história. Ah, lembrando que esse é o segundo livro da trilogia. O primeiro é "Ciudad de las Bestias".

Se abstraírmos um pouco, podemos pensar que Allende está preocupada com as questões culturais de cada região do planeta, que estão sendo influenciadas e até mesmo substituídas (em parte, claro) por aquelas ocidentais. Abstraindo mais um pouco, ela trata da existência das 'bestias', animais pré-históricos que vivem em um local isolado e que a humanidade em geral não tem acesso, as quais pouquíssimas pessoas sabem de sua existência. Daí surge uma questão: será que para os seres viventes, diferentes de nós, continuarem habitando o planeta eles têm que se esconder de nós?

Partes interessantes:

"El miedo no es real, Dil Bahadur, sólo está en tu mente, como todo lo demás. Nuestros pensamientos forman lo que suponemos que es la realidad" (Tensing a Dil Bahadur, pg. 13)

"Enfrenta los obstaculos a medida que se presenten, no pierdas energía temiendo lo que pueda haber en el futuro" (Alexander recordando as palavras do pai, pg. 94)

"Sabía que nada en el mundo es permanente, todo cambia, se descompone, muere y se renueva en otra forma; por lo tanto aferrarse a las cosas de este mundo es inútil y causa sufrimiento. El camino del budismo consistía en aceptar eso." (El rey del Reino Proibido, pg. 154)

"La tormenta arranca del suelo al fornido roble, pero no al junco, porque éste dobla. No calcules mi fuerza, sino mis debilidades" (Tensing a Dil Bahadur, pg. 166)

"... no importa lo que uno crea o no crea, sino lo que uno hace. No podían cazar un pájaro para comerlo, y menos podían matar a un hombre. Debían ver al enemigo como un maestro que les daba la oportunidad de controlar sus pasiones y aprender algo sobre sí mismos." (narrativa, pg. 194)

"Lo único cierto es que en este mundo todo cambia constantemente, Judit. El cambio es inevitable, ya que todo es temporal. Sin embargo, a los seres humanos nos cuesta mucho modificar nuestra esencia y evolucionar a un estado superior de conciencia. Los budistas creemos que podemos cambiar por nuestra propria voluntad, si estamos convencidos de una verdad, pero nadie puede obligarnos a hacerlo." (El Rey hablando con Judit, pg. 275)

Esta edição: ALLENDE, ISABEL. El Reino del Dragón de Oro. 5. ed. Buenos Aires: Debolsillo, 2011.  

Monday, July 25, 2011

AS BRUMAS DE AVALON - O PRISIONEIRO DA ÁRVORE - Marion Zimmer Bradley

"Nesse momento, acompanhando o restante da família real,caminhou até o altar para receber o pão santificado. Morgana, atenta ao seu lado, foi a única dentre todos  os familiares que não se aproximou do altar da comunhão; Morgause pensava desdenhosamente que Morgana era uma grande tola. Não só alienara o povo, como o mais piedoso dentre os vassalos a chamava de feiticeira e bruxa, e até de coisas piores entre eles. E, afinal, que diferença isso fazia? Uma mentira religiosa era tão boa quanto outra, ou não?" (Pensamentos de Morgause sobre Morgana, pg. 56).

Este livro apresenta o desfecho da história. Os personagens já estão mais velhos, fala-se bastante sobre as características físicas de agora - cabelos brancos, a fisionomia não tão jovial como antes - e fala-se também das lembranças de um tempo passado, de episódios que aconteceram nos livros anteriores. Os personagens começam a lamentar a jovialidade que não têm mais, de fatos e pensamentos que antes se mostravam tão importantes mas que agora já não fazem tanta diferença.

O dia de Pentecostes traz grandes surpresas para todos. Artur aguardava o dia para poder nomear, oficialmente, Galahad, filho de Lancelote, como seu sucessor. Enquanto Galahad se senta ao lado dos grandes reis, o filho de Morgana - e de Artur - Gwydion, é apresentado a todos. Ele é levado à festa por Morgause. Como ele não queria fazer votos em nenhuma igreja cristã, ele desafia Lancelote para uma luta, nos jogos do Pentecostes. Este acaba perdendo a luta, e Gwydion pede a Artur que seja nomeado um de seus cavaleiros devido a este feito. 

Morgana trama contra Artur, e o leva, junto com seu amante Acolon, ao mundo das fadas, onde eles lutam e Acolon falece. A intenção é que a Excalibur fosse tomada de Artur, mas este suportou bravamente a luta e saiu ferido, porém vivo, da luta. Morgana, sorrateira, rouba a bainha mágica que fez para Artur enquanto este se recuperava dos ferimentos. Ela é perseguida, mas consegue se desfazer da bainha ao jogá-la no lago de Avalon.

Morgana volta então para Avalon, onde descobre que Kevin havia roubado as relíquias sagradas. Nimue é chamada e ela desenvolverá um papel de grande importância agora. Como estava reclusa, e ninguém conhecia seu rosto, ela é levada para a corte de Artur e tramar a vingança contra Kevin. Ela deveria seduzí-lo, e levá-lo prisioneiro de volta a Avalon, onde seria castigado pelo roubo. Mas antes, em uma das festas de Pentecostes, acontece um "milagre" com a relíquia do cálice: Morgana, com a ajuda de Raven, ou por uma magia da Deusa, encarna um "anjo" e promove uma visão a cada um dos presentes. O cálice circula por entre todos, e todos provam do vinho que alí estava, e depois o cálice some. Cada um fala sobre uma coisa diferente que viu: uns viram a virgem Maria, outros um anjo, outros apenas uma forte luz... mas no fim os cavaleiros de Artur se separam para poderem buscar o santo Graal, e o único que fica a seu lado é Gwydion. 

Raven falece nesse mesmo dia: talvez pela grande força que despendeu para que a magia acontecesse. Morgana volta a Avalon, e agora espera até que Nimue faça seu trabalho. Nimue efetua um encanto em que tanto ela quanto Kevin se sintam apaixonados, e esse é o perigo: o encanto recai sobre os dois, e tudo que um sente, o outro sente também. Depois de alguns meses, Nimue volta para Avalon com Kevin, mas não suporta o sofrimento de ver o amado sendo executado. Ela se suicida no mesmo momento em que ele é morto, e que cai um raio e parte o grande salgueiro em dois. Kevin é então "enterrado" dentro da fenda da árvore, e Nimue encontrada no lago, morta. 

No meio tempo, Galahad, assim como vários dos cavaleiros de Artur, saiu em busca do graal e não volta mais: ao encontrá-lo, ele morre ao ver sua luz. Artur fica novamente sem herdeiros para seu trono. 

Gwydion trama contra Gwen e Lancelote: este mata alguns dos cavaleiros de Artur e foge com Gwen em um cavalo em disparada. Gwen convence Lancelote de que é melhor ela ir para o convento de Glastonbury, e ele volte para fazer as pazes com Artur. Ela então se enclausura alí para sempre. Lancelote volta para a corte, mas o livro não apresenta muitos detalhes do que acontece alí. 

Sabe-se então que Gwydion luta com Artur, que sai vencedor. Mas tudo isso é contado com poucos detalhes, como se fosse uma visão de Morgana. Ela encontra Artur ferido e fica junto a ele até que ele faleça. Lancelote vira padre, e após algum tempo, Morgana vai ao convento de Glastonbury onde reconhece a presença da Deusa nas imagens da virgem Maria. E assim termina a história de Avalon e do reino de Artur. 

É um livro ótimo, assim como todos os outros! Mas senti falta de mais detalhes dessa luta entre Gwydion e Artur. Vale muito a pena ler os quatro livros! Recomendo muito... já faz parte da lista dos meus preferidos! 

Passagens interessantes:

"O deus deles seria Uno, e o único e apagaria todas as referências à Deusa a quem servimos. Ouça-me, Kevin, será que você não vê como isso limita a sabedoria do mundo, se existir um único Ser, em vez de muitos? Acho que foi um erro transformar os saxões em cristãos. Creio que os antigos padres que viveram em Glastonbury tinham razão. Por que não poderiam existir muitos caminhos, os saxões seguindo o deles, nós o nosso, os seguidores de Cristo a cultuá-lo se o quisessem, sem perseguir a crença dos outros?" (Morgana em conversa com o Merlim, Kevin, pg. 95)

"Por que, Morgana perguntava-se, tem de ser assim? Tinha a ver com o conhecimento de que o mundo era como era por causa daquilo em que os homens acreditavam que era... ano após ano, nestas últimas três ou quatro gerações, a mente dos homens endurecera-se, passando a crer que havia um Deus, um mundo, um  modo de descrever a realidade, que todas as coisas que se intrometessem no reino dessa grande unidade tinham de ser más e demoníacas, e que o som de seus sinos e a sombra de seus lugares santos manteriam o mal afastado. E como mais e mais pessoas acreditavam nisto, era assim, e Avalon não passava de um sonho à deriva em um mundo quase inacessível." (Pensamentos de Morgana, pg. 125)

"Talvez a religião que exige que todo homem trabalhe por vidas e vidas para sua salvação seja demais para a humanidade. Eles não querem esperar pela justiça divina, mas querem vê-la agora. E este é o chamariz que esta nova raça de sacerdotes lhes prometeu." (Lancelote em conversa com Morgana, pg. 198)

Esta edição: BRADLEY, Marion Zimmer. As Brumas de Avalon - O Prisioneiro da Árvore. Rio de Janeiro: Imago, 1985. 

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