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Saturday, January 12, 2013

A CASA VERDE - Mario Vargas Llosa

"- E veja só para que me serviu a ambição - disse Fushía. - Para terminar mil vezes pior que você, que nunca teve ambições.              
-Deus não o ajudou, Fushía - disse Aquilino - Tudo o que acontece depende disso. 
- E por que não me ajudou e sim a outros? - disse Fushía. - Por que me arruinou e ajudou Reátegui, por exemplo?
- Pergunte quando morrer - disse Aquilino. - Como quer que eu saiba, Fushía."  (A Casa Verde, pg. 324)
Admito que estou com dificuldade em descrever este livro.  É uma obra muito peculiar... Já li outros livros do Vargas Llosa, e também de diversos outros autores, mas não me lembro de serem escritos de forma tão particular. A obra é apresentada em 404 páginas, divididas em quatro capítulos e o epílogo. Este é o segundo romance do autor, escrito em Paris, entre 1962 e 1965, e publicado originalmente em 1966. 

Basicamente, o autor conta a história de um prostíbulo que tinha suas paredes pintadas de verde e, por isso, acabou sendo chamada pelos moradores da cidade de 'Casa Verde'. Foi construída por Dom Anselmo, na pequena cidade de Piura (Peru), e causou grande alvoroço. A história gira em torno dos personagens que frenquentam/frequentaram o prostíbulo, bem como os/as profissionais que dele fazem/fizeram parte. O autor reúne, no decorrer da história, pequenas cidades do interior do Peru, floresta amazônica, tribos indígenas, contrabando de produtos produzidos pelos índios, corrupção, a dominação do branco sobre os indígenas, prostituição, pedofilia, dentre outros temas críticos até os dias atuais. 

O diferencial da narrativa é que o autor não apresenta os fatos em sua ordem cronológica, ou mesmo os apresenta em uma sequencia linear. Em um mesmo parágrafo o autor flutua entre o presente e o passado, deixando a cargo do leitor diferenciá-los. São vírgulas e pontos, ou um pronome, que nos evidencia o momento no tempo e quem está envolvido. O narrador também se envolve nessa mescla. Há trechos que são como o apresentado acima, em que se colocam os nomes dos personagens e não há nenhuma dificuldade em acompanhar o desenvolvimento. Porém há trechos em que o autor nem mesmo faz parágrafo: são páginas e páginas de diálogos, pensamentos, lembranças que contam apenas com a pontuação para se diferenciarem. Talvez algum dos livros de Saramago, que agora não me recordo o nome, se assemelhe a essa última característica.  

Apresento aqui a descrição colocada na capa do livro: "Com influências de William Faulkner e Gustave Flaubert, Varga Llosa cria um texto vibrante, em que a voz do narrador se mescla à fala dos personagens, e ações do passado e do presente se intercalam num fluxo inovador."

Acho que vale a pena ler. É bem curioso. As peças vão se juntando ao longo da história, e você  vai entendendo os porquês e quem é quem. Alguns trechos interessantes:

"- Não gosto dessas coisas, em Chicais quase fiquei doente - repetiu o Pequeno com uma careta de desagrado. - Não se lembram da velha peituda? Foi errado arrancar as crias assim. Sonhei com isso duas vezes. 
- E olhe que elas não arranharam você como fizeram comigo - disse o Louro, rindo; mas logo ficou sério e acrescentou: - Era para o bem delas Pequeno. Para ensinar a vestir-se, a ler e a falar cristão. 
- Ou prefere que elas continuem selvagens? - perguntou o Escuro." ( Trecho em que falavam sobre a catequese das índias crianças que eram levadas das tribos, pg. 121)

"É por isso que acho que as mágoas lá no fundo explicam tudo - disse o Jovem. É por isso que alguns viram bêbados, outros padres, outros assassinos." (pg. 236)

"No princípio tinha um pouquinho de medo, mas agora não, só ficava nervoso. O patrão teve medo alguma vez? Nunca, porque pobre que tem medo fica pobre a vida inteira. Mas não era bem assim, patrão, Nieves sempre foi pobre e a pobreza não obedecia ao medo. É que Nieves se conformava e o patrão, não." (pg. 285)

"E pergunta-se pela última vez se foi melhor ou pior, se a vida deve ser assim, e o que teria acontecido se ela não, se você e ela, se foi um sonho ou se as coisas são sempre diferentes dos sonhos, e faça um esforço final e pergunte-se se alguma vez você se resignou, e se é porque ela morreu ou porque é velho que você está tão conformado com a ideia de morrer." (pg. 349)

Sobre essa edição: Llosa, Mario Vargas. A casa verde. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010. 407 p. 

Thursday, February 11, 2010

PANTALEÓN E AS VISITADORAS - Mario Vargas Llosa

Antes de comprar novos livros, decidi por ler todos os que estão aqui em casa. Uma coleção variada e antiga, que está parada na estante, e que há muito não é lida. No resgate desses livros, acabei por ler a edição de 1973 de "Pantaleón e as visitadoras", da editora Círculo do Livro. 

O livro trata da história de Pantaleón Pantoja, um  recém- promovido capitão do exército peruano, que recebe a missão de estruturar um sistema de visitadoras - prostitutas volantes - para servir aos postos e guarnições militares presentes na selva amazônica. O objetivo era diminuir o número de estupros na região. Panta era um membro exemplar do exército, que vivia com sua esposa (Pochita) e sua mãe de forma simples e fiel. No decorrer da trama, Pochita tem uma filha, Panta se torna o "rei" da prostituição na região, acaba por se envolver com a prostituta mais bonita (a Brasileira), e é abandonado pela esposa. A presença de um sistema de visitadoras acaba por criar atritos com a igreja, a imprensa e a população local. Paralelamente à história de Panta, surge um profeta popular - o irmão Francisco - que arrebanha cada vez mais seguidores para cerimônias de crucificação de animais e, ocasionalmente, humanos. 

"O livro não tem propriamente um narrador. Sua estrutura alterna capítulos feitos de diálogos com outros compostos pelos textos mais diversos: cartas, memorandos do Exército, notícias de jornal, programas radiofônicos. Compõe-se um romance polifônico e polimorfo, que convoca o leitor a participar da construção da história, juntando os fragmentos e preenchendo os espaços vazios." Fonte:<http://biblioteca.folha.com.br/1/noticias/2003091301.html>  

A título de curiosidade, a editora "Círculo do Livro" foi lançada em 1973 e vendia seus livros por um sistema de "clube e sócios". Cada sócio era obrigado a adquirir uma obra por ciclo por meio de catálogos com os diferentes títulos disponíveis. Eram livros feitos em capa dura e oferecidos a preços competitivos. Não consegui descobrir o fim da empresa, mas continuarei procurando. 

Eu gostei do livro e recomendo. Além do livro há também o filme, de mesmo nome, que foi lançado em 1999 no Peru. Não cheguei a vê-lo ainda, mas assim que possível o farei. Curiosidades sobre o filme - encontrados no site adorocinema.com
  • Pantaleón e as Visitadoras foi o único filme produzido no Peru em 1999.
  • Este é o 2º livro de Mario Vargas Llosa que é adaptado para o cinema pelo diretor Francisco J. Lombardi. O anterior foi La Ciudad y los Perros (1985). 
  • Refilmagem de Pantaleón y las Visitadoras (1975), que foi dirigido pelo próprio Mario Vargas Llosa.
  • Foi exibido no Festival do Rio 2000
Mais informações sobre o filme: Pantaleón e as visitadoras