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Sunday, March 2, 2014

ELOGIO DA LOUCURA - Erasmo de Rotterdam

" Do mesmo modo, o vulgo admira sobretudo as coisas em que prevalece a matéria e crê que sejam quase as únicas coisas existentes. As pessoas piedosas, pelo contrário, quanto mais uma coisa diz respeito ao corpo, tato mais a desdenham e se entregam completamente à contemplação do invisível. Uns colocam em primeiro lugar as riquezas, em segundo lugaras comodidades relativas ao corpo e em último lugar a alma, que, afinal, a maioria sequer acredita existir, pois o olho não pode vê-la. Os outros, ao contrário, tendem em primeiro lugar, de todo o coração, para DEus, o mais simples dos seres; em segundo lugar, a algo que ainda permanece em sua proximidade, ou seja, a alma, que mais do que tudo está próxima de Deus; desdenham o cuidado do corpo, desprezam as riquezas e delas fogem como algo imundo." (Elogio da Loucura, pg. 116)

A partir do trecho acima transcrito é possível perceber o tom do livro. Bastante interessante, é uma obra escrita em 1509, quando o autor estava com 44 anos (ele nasceu em 1465). O narrador do ensaio é a Loucura, que busca explicitar, por meio de fatos e exemplos, seu importante papel na vida humana. É um texto muito atual, com exemplos que se aplicam facilmente aos nossos dias. 

Rotterdam cita muitos personagens relacionados à mitologia e por isso fiquei um pouco perdida (não tenho muito conhecimento sobre eles!). Acredito que se soubesse um pouco mais, eu poderia ter um entendimento mais completo sobre a obra. Mas isso acontece apenas no início. Depois o autor começa a citar como exemplos os religiosos, os teólogos, filósofos, os magistrados, dentre outros, fazendo um contraponto com o papel da Loucura em suas vidas. E o fato de ela tornar a vida mais leve e mais fácil de ser vivida.

Sobre a igreja e os religiosos a crítica é ampla e forte, o que, de acordo com o texto na contracapa do livro,  fez com que se tornasse "um grande influenciador da Reforma Protestante". Ademais, um primo comentou que o leu a pedido da faculdade de direito. Interessante saber. O autor faz menção à oratória, e o discurso da Loucura em toda a obra está ligado a ela. 

Eu comprei o livro, mas descobri que poderia tê-lo lido de graça. Você pode baixar a obra em .pdf diretamente no site Ebooks Brasil ou no site Domínio Público. São poucas páginas, apenas 121. Lê-se rapidamente!

Trechos interessantes:

"Seja loucura quanto quiserem; terão de reconhecer a sua coerência. (...) Eu, porém, sigo aquele velho ditado popular segundo o qual quem não tem quem o louve, louve-se a si mesmo." (pg. 14 e 15)

"E que é esta vida, se lhe tirarmos o prazer? Pode ainda chamar-se vida?" (pg. 21)

"É por mérito meu que os jovens são tão carentes de juízo; por isso estão sempre de bom humor. Eu mentiria, porém, se não admitisse que, tão logo crescem um pouco e começam a adquirir certa maturidade com a experiência e a educação, a beleza logo murcha, diminui a alegria, esmorece a graça, decresce o vigor. Quanto mais se distanciam de mim, menos vivem, até chegar aos que voltaram à infância, ou seja, a importuna velhice, odiosa não só aos outros, mas também a si mesma." (pg. 22)

"Age contra o bom-senso quem não sabe adaptar-se ao presente, quem não adota os usos correntes e se esquece até da regra de convívio - ou bebes ou vais embora - e gostaria que uma comédia não fosse mais uma comédia." (pg. 41)

"Voltando ao assunto: a Fortuna ama os imprudentes, os audaciosos, os que adotam o lema: 'o dado foi lançado'. A sabedoria, ao contrário, torna tímidas as pessoas; por isso normalmente vedes esses sábios empenhados em lutar contra a pobreza, a fome, a fumaça; esquecidos, sem prestígio, sem simpatias, ao passo que os loucos, repletos de dinheiro, obtêm os altos cargos do estado e, para resumir, prosperam em todos os sentidos." (pg. 100)

"Quem não sabe que quanto mais disseminado um bem, mais valioso é?" (pg. 102)

Esta edição: ROTTERDAM, Erasmo. Elogio da Loucura. 3a ed. São Paulo: Martin Claret, 2012. (Coleção A obra-prima de cada autor; 37).

Monday, October 28, 2013

A FELICIDADE, DESESPERADAMENTE - André Comte-Sponville

"(...) Ora, se só desejamos o que não temos, nunca temos o que desejamos, logo nunca somos felizes. Não que o desejo nunca seja satisfeito, a vida não é tão difícil assim. Mas é que, assim que um desejo é satisfeito, ele se abole como desejo: 'O prazer', escreverá Sartre, 'é a morte e o fracasso do desejo'. E, longe de ter o que desejamos, temos então o que desejávamos e já não desejamos. Como ser feliz não é ter o que desejávamos mas ter o que desejamos, isso nunca pode acontecer (já que, mais uma vez, só desejamos o que não temos). De modo que ora desejamos o que não temos, e sofremos com essa falta, ora temos o que, portanto, já não desejamos - e nos entendiamos, como escreverá Schopenhauer, ou nos apressamos a desejar outra coisa." (A Felicidade, Desesperadamente - pg. 28)

Os principais pontos de discussão abordados na obra dizem respeito à felicidade, à sabedoria e à filosofia. Trata-se de uma palestra que foi transformada em um livro e, ao final, são apresentadas perguntas feitas pelos participantes ao autor. Todo o livro é de grande riqueza, trazendo para a atualidade discursos centenários e que nos ajudam a tornar mais leve a nossa caminhada na vida. São pontos de vista que abrem nossa visão para novas possibilidades. 


Grande parte do livro discute a filosofia e a felicidade como elementos altamente relacionados: "O que é a filosofia? (...) Quanto a mim, adotei a resposta que Epicuro dava a essa pergunta. Ela assume devidamente a forma de uma definição: 'A filosofia é uma atividade que, por discursos e raciocínios nos proporciona uma vida feliz'" (pg. 7). Assim como a sabedoria, conforme esta passagem: "A felicidade é a meta da filosofia. Ou, mais exatamente, a meta da filosofia é a sabedoria, portanto a felicidade - já que, mais uma vez, uma das ideias mais aceitas em toda a tradição filosófica, especialmente na tradição grega, é que se reconhece a sabedoria pela felicidade, em todo caso por certo tipo de felicidade" (pg. 9).

É um livro pequeno: são 89 páginas de texto corrido + 47 páginas com perguntas e respostas. A leitura é muito tranquila. Não me atrevo a fazer análises filosóficas da obra, visto que meu conhecimento para tal é insuficiente. Mas para o leitor comum, asseguro que é vantajoso e vale a pena a sua leitura. 

O autor faz uma crítica muito interessante que se encaixa perfeitamente às nossas rotinas atuais: "Só esperamos o que não temos, e por isso mesmo somos tanto menos felizes quando mais esperamos ser felizes. estamos constantemente separados da felicidade pela própria esperança que a busca. (...) Pascal explica que jamais vivemos para o presente: vivemos um pouco para o passado, explica ele, e principalmente muito, muito, para o futuro. O fragmento termina da seguinte maneira: 'Assim, como nunca vivemos, esperamos viver; e, dispondo-nos sempre a ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos.'" (pg. 36/37). Me identifiquei tanto com este trecho, que me pus a pensar em como reverter essa situação em minha vida... Ainda vou encontrar uma forma!

Abaixo, mais alguns trechos que achei interessantes: 

"O essencial é não mentir, e antes de mais nada não se mentir. Não se mentir sobre a vida, sobre nós mesmos, sobre a felicidade." (pg. 15)

"Enquanto você vê uma diferença entre a salvação e sua vida real, entre a sabedoria e sua vida como ela é, malsucedida, desperdiçada, malograda, você está na sua vida como ela é. A sabedoria não é outra vida, em que de repente tudo iria bem em seu casamento, em seu trabalho, na sociedade, mas outra maneira de viver esta vida, como ela é. Não se trata de esperar a sabedoria como outra vida; trata-se de aprender a amar esta vida como ela é..." ( pg. 126)

"É o que Schopenhauer chama de tédio, que é a ausência da felicidade no lugar mesmo da sua presença esperada. Você pensava: 'Como eu seria feliz se...' E ora o se não se realiza, e você é infeliz; ora ele se realiza, e você nem por isso é feliz: você se entedia ou deseja outra coisa." (pg. 35)

"É por isso que podemos ser felizes, é por isso que às vezes o somos: porque fazemos o que desejamos, porque desejamos o que fazemos!" (pg. 48)

"Só se espera o que se ignora: quando se sabe, já não há por que esperar." (pg. 54)

"Só esperamos o que somos incapazes de fazer, o que não depende de nós. Quando podemos fazer, não cabe mais esperar, trata-se e querer. É a terceira característica: a esperança é um desejo cuja satisfação não depende de nós." (pg. 57)

"Não é a falta que lhe falta; é a potência de gozar o que não lhe falta." (pg. 78)

Sobre esta edição: Comte-Sponville, André. A felicidade, desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes, 2001. 146 p.

Sunday, November 25, 2012

GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA FILOSOFIA - Luiz Felipe Pondé

"Nada pior do que essas pessoas que não sabem nada, mas não sabem que não sabem nada, e levam  suas vidas banais (toda vida é banal, mas a classe média com sua infinita baixa autoestima não sobrevive a esse fato) como se tivessem algum grande valor que não foi descoberto pelos outros." (Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, pg. 184). 
"Uma mentira moral é sempre uma hipocrisia." (pg. 18)

Eu estava em uma papelaria, esperando para ser atendida, quando vi esse título na prateleira. Tive curiosidade de conhecê-lo e acabei lendo algumas de suas páginas. Enquanto eu lia, e ria de alguns trechos, fui intercedida por outro cliente da papelaria que disse já ter lido e gostado bastante do livro. Fiquei encucada e tive mais vontade de lê-lo! 

A leitura é muito tranquila e o finalizei em apenas dois dias. São 230 páginas numeradas mas entre os capítulos há sempre 3 ou 4 páginas pretas ou ilustradas que não possuem texto. Então a leitura é bem rápida mesmo! 

A proposta do livro é apresentar uma crítica aos politicamente corretos e suas idéias, que muitas vezes nos emburrecem. A obra é dividida em vários capítulos, com curtos ensaios, que tratam de diferentes temas. São tópicos diversos, que fazem parte do nosso cotidiano, como sexualidade, aristocracia e ditadura. Todos são abordados visando a crítica à visão dos 'politicamente corretos'.  

É interessante de se ler. As críticas, muitas pesadas, nos apresentam as coisas sob pontos de vista diferentes. Recomendo a leitura! 

Trechos interessantes:

"Tenho medo do mundo, por isso, com a idade (hoje tenho 52 anos), tenho me tornado um homem sem muita curiosidade pelos outros, porque no fundo as pessoas são bem monótonas." (pg. 19)

"A praga PC (politicamente correto) é uma mistura de covardia, informação falsa e preocupação com a imagem. Combina com uma época frouxa como a nossa." (pg. 27) (o texto grifado foi acrescentado)

"Os melhores lideram, os médios e medíocres seguem." (pg. 38)

"Isso mesmo: força e coragem fazem as pessoas verdadeiras nas suas relações, enquanto a ausência de virtudes como essas as faz mentirosas e traiçoeiras." (pg. 42)

"... o homem da democracia, quando quer saber algo, pergunta para a pessoa do seu lado, e o que a maioria disser, ele assume como verdade. Daí que, no lugar do conhecimento, a democracia criou a opinião pública." (pg. 51)

"... quanto mais um homem ama (investe afetivamente em) uma mulher, mais ele fica inseguro e ciumento. Se seu namorado estimula você a viajar sozinha, ele provavelmente a está rifando." (pg. 85)

"A maior inimiga da beleza da mulher é a outra mulher, a feia. A condenação do uso da beleza feminina por parte das  mulheres é uma ferramenta das que não têm, por azar (a beleza ainda é um recurso contingente), acesso à beleza, seja porque são feias, seja porque (no caso dos homens), em sendo feio (ou fraco), ele não pode 'pegar' a beleza da mulher nas mãos, beijá-la ou penetrá-la." (pg. 92)

Sobre esta edição: PONDÉ, Luiz Felipe. Ensaio politicamente incorreto da filosofia, Ensaio de Ironia. São Paulo: Leya, 2012. 


Saturday, January 8, 2011

PEQUENO TRATADO DAS GRANDES VIRTUDES - André Comte-Sponville

"Das virtudes quase não se fala mais. Isso não significa que não precisemos mais delas, nem nos autoriza a renunciar a elas. É melhor ensinar as virtudes, dizia Spinoza, do que condenar os vícios. É melhor a alegria do que a tristeza, melhor a admiração do que o desprezo, melhor o exemplo do que a vergonha." Pequeno Tratado das Grandes Virtudes (A.Comte-Sponville, capa do livro)
Como se pode ver, assim como o texto de 'Ética para o meu filho', este livro trata um tema específico: as virtudes. O autor divide o livro em 18 capítulos que contemplam 18 virtudes. É um texto filosófico, dado que o próprio autor é um filósofo, porém é muito gostoso de se ler. E o principal: não é preciso conhecer filosofia para entendê-lo! As vezes um pouco confuso, mas quando se apreende o estilo da escrita, se torna fácil. Os temas apresentados, juntamente com os respectivos exemplos, nos convidam a refletir sobre aquilo que temos como valores e, principalmente, como agimos em relação ao próximo. É um livro que vale muito a pena ler e indico a todos. Aliás, todos deveriam lê-lo!

Abaixo selecionei alguns trechos que achei interessante de cada uma das 18 virtudes: 

1. A Polidez 
'Há o que é permitido e o que é proibido, o que se faz e o que não se faz. Bem? Mal? A regra basta, ela precede o julgamento e o funda' (pg. 15)
'A polidez, se levada por demais a sério, é o contrário da autenticidade. Os certinhos são como crianças grandes bem comportadas demais, prisioneiras das regras, enganadas quanto aos usos e às conveniências' (pg. 20). 

2. A Fidelidade
'A fidelidade é virtude de memória, e a própria memória como virtude' (pg. 26)
'A infidelidade supõe a memória: uma pessoa só pode ser fiel ou infiel àquilo de que se lembra (um amnésico não poderia nem manter nem trair sua palavra), e é nisso que fidelidade e infidelidade são duas formas opostas da lembrança, uma virtuosa, a outra não' (pg. 27).

3. A Prudência
'De uma virtude intelectual, explicava Aristóteles, pelo fato de haver-se com o verdadeiro, com o conhecimento, com a razão: a prudência é a disposição que permite deliberar corretamente sobre o que é bom ou mau para o homem (não em si, mas no mundo tal como é, não em geral, mas em determinada situação) e agir em consequência, como convier' (pg. 38)
'A prudência é o que separa a ação do impulso, o herói do desmiolado' (pg. 41)

4. A Temperança
'A temperança é essa moderação pela qual permanecemos senhores de nossos prazeres, em vez de seus escravos' (pg. 46)
'Ser temperante é poder contentar-se com pouco; mas não é o pouco que importa: é o poder,e é o contentamento.(...) A ilimitação dos desejos, que nos condena à falta, à insatisfação ou à infelicidade, nada mais é que uma doença da imaginação' (pg. 47)

5. A Coragem
'... digamos um domínio de si e de seu medo, disposição ou domínio de si que, sem serem sempre morais, são pelo menos a condição - não suficiente, mas necessária - de toda moralidade. O medo é egoísta. A covardia é egoísta' (pg. 56)
'Um homem de alma forte, lemos em Spinoza, "esforça-se por agir bem e manter-se alegre"; confrontado com os obstáculos, que são muitos, esse esforço é a própria coragem' (pg. 61)

6. A Justiça
'A justiça é aquilo sem o que os valores deixariam de ser valores ...' (pg. 71)
'A justiça situa-se neste duplo respeito à legalidade, na Cidade, e à igualdade entre indivíduos: "O justo é o que é conforme à lei e o que respeita a igualdade, e o injusto o que é contrário à lei e o que falta com a igualdade"' (pg. 72)
'...é necessário "pôr a justiça e a força juntas"; é para isso que a política serve e é isso que a torna necessária' (pg. 93)

7. A Generosidade
'A generosidade só é uma virtude tão grande e tão gabada porque é muito fraca em cada um, porque o egoísmo é mais forte sempre, porque a generosidade só brilha, na maioria das vezes, por sua ausência...' (pg. 103)
'Ser generoso é ser livre de si, de suas pequenas covardias, de suas pequenas posses, de suas pequenas cóleras, de seus pequenos ciúmes...Descartes via nisso não apenas o princípio de toda virtude, mas o bem soberano, para cada um, o qual consiste apenas, dizia ele, "numa firme vontade de agir bem e no contentamento que ela produz."' (pg. 106)

8. A Compaixão
'Compartilhar o sofrimento do outro não é aprová-lo nem compartilhar suas razões, boas ou más, para sofrer: é recusar-se a considerar um sofrimento, qualquer que seja, como um fato indiferente, e um ser vivo, qualquer que seja, como coisa' (pg. 118)
'Cabe acrescentar: mais vale um amor entristecido - o que é, exatamente, a compaixão - do que um ódio alegre' (pg. 121)

9. A Misericórdia
'É cessar de odiar, e é essa de fato a definição da misericórdia: ela é a virtude que triunfa sobre o ressentimento, sobre o ódio justificado (pelo que ela vai além da justiça), o rancor, o desejo de vingança ou de punição' (pg. 132)
'O fato, entretanto, é que perdoaremos mais facilmente quando tivermos consciência das causas que pesam sobre um ato ou, sobretudo, sobre uma personalidade' (pg. 138)
'A misericórdia é a a virtude do perdão, e seu segredo, e sua verdade. Ela não abole a falta mas o rancor, não a lembrança mas a cólera, não o combate mas o ódio. Ela ainda não é amor mas o que faz as vezes dele, quando ele é impossível, ou que o prepara, quando ele seria prematuro.' (pg. 143)

10. A Gratidão
'Agradecer é dar: ser grato é dividir. Esse prazer que devo a você não é apenas para mim. Essa alegria é nossa. Essa felicidade é a nossa. (...) A ingratidão não é incapacidade de receber, mas incapacidade de retribuir - sob forma de alegria, sob a forma de amor - um pouco da alegria recebida ou sentida.' (pg. 146)
'"A vida do insensato", dizia Epicuro, "é ingrata e inquieta: ela se volta toda para o futuro". Por isso eles vivem em vão, incapazes de se saciarem, de se satisfazerem, de serem felizes: eles não vivem, dispõem-se a viver, como dizia Sêneca, esperam viver, como dizia Pascal, depois lamentam o que viveram ou, mais frequentemente, o que não viveram... O passado como o futuro lhes falta.' (pg. 150)

11. A Humildade
'Se alguém imagina sua própria impotência, sua alma "se entristece por isso mesmo".' (pg. 154)
'A humildade, como virtude, é essa tristeza verdadeira de sermos apenas nós.' (pg. 156)

12. A Simplicidade
'Julgar-se é levar-se a sério demais. O simples não se questiona tanto assim sobre si mesmo. (...) Ele não se aceita nem se recusa. Não se interroga, não se contempla, não se considera. Não se louva nem se despreza. Ele é o que é, simplesmente, sem desvios, sem afetação, ou antes - pois ser lhe parece uma palavra grandiosa demais para tão pequena existência -, faz o que faz, como todos nós, mas não vê nisso matéria para discursos, para comentários, nem mesmo para reflexão.' (pg. 163)
'Nada tem a provar, pois não quer parecer nada. Nada tem a buscar, pois tudo está ali.' (pg. 171)

13. A Tolerância
'O direito ao erro só é válido a parte ante; uma vez demonstrado o erro, este deixa de ser um direito e não dá direito algum: perseverar no erro, a parte post, já não é um erro, mas uma falta.' (pg. 174)
'Por isso chamamos de tolerância o que, se fôssemos mais lúcidos, mais generosos, mais justos, deveria chamar-se respeito, de fato, ou simpatia, ou amor...' (pg. 188)

14. A Pureza
'O puro não vê o mal em parte alguma ou, antes, apenas onde ele se encontra, onde o sofre: no egoísmo, na crueza, na maldade... É impuro tudo o que se faz de má vontade, ou com vontade má.' (pg. 195)
'A pureza é pobreza, despojamento, abandono. Ela começa onde cessa o eu, onde ele não vai, onde ele se perde.' (pg. 197)

15. A Doçura
'A doçura é uma força, por isso é uma virtude: é a força em estado de paz, força tranquila e doce, cheia de paciência e de mansuetude.' (pg. 205)
'Faz teu bem com o menor mal possível ao outro' (pg. 208)

16. A Boa-fé
'A boa-fé é uma sinceridade ao mesmo tempo transitiva e reflexiva. Ela rege, ou deveria reger, nossas relações tanto com outrem como conosco mesmos. Ela quer, entre os homens como dentro de cada um deles, o máximo de verdade possível, de autenticidade possível, e o mínimo, em consequência, de artifícios ou dissimulações.' (pg. 214)

17. O Humor
'Não ter humor é não ter humildade, é não ter lucidez, é não ter leveza, é ser demasiado cheio de si, é estar demasiado enganado acerca de si, é ser demasiado severo ou demasiado agressivo, é quase sempre carecer, com isso, de generosidade, de doçura, de misericórdia...' (pg. 229)
'A ironia é isso mesmo: é um riso que se leva a sério, é um riso que zomba, mas não de si, é um riso, e a expressão é bem reveladora, que goza da cara dos outros...' (pg. 232)
'"O humor, ao contrário, é uma manifestação da generosidade: sorrir daquilo que amamos é amá-lo duas vezes mais." Duas vezes mais? Não sei. Digamos que é amar melhor, com mais leveza, com mais espírito, com mais liberdade.' (pg. 236)

18. O Amor
'Sua ausência, mesmo que seja insolúvel, é o que torna as virtudes necessárias: o amor (mas o amor não egoísta) liberta da lei, quando existe, e a inscreve no fundo dos coraçòes, quando falta. (...) Pelo que o amor nos destina à moral e dela nos liberta. Pelo que a moral nos destina ao amor, ainda que ele esteja ausente, e a ele se submete.' (pg. 311)

'Como não somos virtuosos, fingimos ser, é o que se chama polidez. Como não sabemos amar, fingimos amar, é o que se chama moral. E os filhos imitam os pais, que imitam os seus... O mundo é um teatro, a vida é uma comédia, em que, no entanto, nem todos os papéis se equivalem, e nem todos os atores.' (pg. 108)

Essa edição:
Comte-Sponville, André. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. 2 ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009

Wednesday, November 3, 2010

ÉTICA PARA MEU FILHO - Fernando Savater

"... diante do melhor e do pior dos seres humanos cabem diferentes apreciações ou avaliações, mas não a indiferença, pois a humanidade do outro sempre compromete a minha..." (Ética para meu filho, Fernando Savater, pg. 139).

Li o livro por indicação. A expectativa era a de que eu pudesse ter uma visão um tanto diferente das coisas e das pessoas que me cercam e, principalmente, das atitudes e escolhas que tenho e faço para comigo mesma e para com os outros. Como o próprio autor diz "este livro não é um manual de ética para adolescentes, nem um compêndio com os trabalhos dos mais destacados autores ou os mais importantes movimentos da teoria moral ao longo da história; tampouco traz respostas moralizantes para os problemas cotidianos". 

"A palavra ética se origina do termo grego ethos, que significa 'modo de ser', 'caráter', 'costume', 'comportamento'. De fato, a ética é o estudo desses aspectos do ser humano: por um lado, procurando descobrir o que está por trás do nosso modo de ser e de agir; por outro, procurando estabelecer as maneiras mais convenientes de sermos e agirmos. Assim, pode-se dizer que a ética trata do que é 'bom' e do que é 'mau' para nós." (Fonte: http://educacao.uol.com.br/filosofia/ult3323u14.jhtm; acesso em 03/11/2010)

Me foi apresentada uma nova forma de ver a vida. A ética é tida como uma maneira de se entender e buscar uma 'boa vida' dentro dos moldes 'humanos', que é o que queremos para nós mesmos. A idéia é que a ética irá delinear nossas ações, tendo sempre em consideração a liberdade e aquilo que desejamos. Como não é um livro que conta uma história, deixo abaixo algumas frases, trechos que achei interessante durante a leitura:

"Por mais que nos vejamos acuados pelas circunstâncias, nunca temos apenas um caminho a seguir, mas vários." (pg. 24)

"Às vezes os homens querem coisas contraditórias, que entram em conflito umas com as outras. É importante ser capaz de estabelecer prioridades e de impor uma certa hierarquia entre aquilo que tenho vontade imediatamente e o que quero no fundo, a longo prazo." (pg. 54)

"Só deveríamos chamar de egoísta consequente aquele que sabe de verdade o que lhe convém para viver bem e se esforça para conseguí-lo." (pg. 76)

"Responsabilidade é saber que cada um de meus atos vai me construindo, vai me definindo, vai me inventando. Ao escolher o que quero fazer vou me transformando pouco a pouco." (pg. 83)

"... o que interessa à ética, o que constitui sua especialidade, é como viver bem a vida humana, a vida que transcorre entre humanos." (pg. 86)

"Por que o prazer assusta? Suponho que seja por nos agradar demais.(...) O prazer as vezes nos distrai mais do que convém, o que pode acabar sendo fatal." (pg. 104)