Pages

Showing posts with label loucura. Show all posts
Showing posts with label loucura. Show all posts

Sunday, March 2, 2014

ELOGIO DA LOUCURA - Erasmo de Rotterdam

" Do mesmo modo, o vulgo admira sobretudo as coisas em que prevalece a matéria e crê que sejam quase as únicas coisas existentes. As pessoas piedosas, pelo contrário, quanto mais uma coisa diz respeito ao corpo, tato mais a desdenham e se entregam completamente à contemplação do invisível. Uns colocam em primeiro lugar as riquezas, em segundo lugaras comodidades relativas ao corpo e em último lugar a alma, que, afinal, a maioria sequer acredita existir, pois o olho não pode vê-la. Os outros, ao contrário, tendem em primeiro lugar, de todo o coração, para DEus, o mais simples dos seres; em segundo lugar, a algo que ainda permanece em sua proximidade, ou seja, a alma, que mais do que tudo está próxima de Deus; desdenham o cuidado do corpo, desprezam as riquezas e delas fogem como algo imundo." (Elogio da Loucura, pg. 116)

A partir do trecho acima transcrito é possível perceber o tom do livro. Bastante interessante, é uma obra escrita em 1509, quando o autor estava com 44 anos (ele nasceu em 1465). O narrador do ensaio é a Loucura, que busca explicitar, por meio de fatos e exemplos, seu importante papel na vida humana. É um texto muito atual, com exemplos que se aplicam facilmente aos nossos dias. 

Rotterdam cita muitos personagens relacionados à mitologia e por isso fiquei um pouco perdida (não tenho muito conhecimento sobre eles!). Acredito que se soubesse um pouco mais, eu poderia ter um entendimento mais completo sobre a obra. Mas isso acontece apenas no início. Depois o autor começa a citar como exemplos os religiosos, os teólogos, filósofos, os magistrados, dentre outros, fazendo um contraponto com o papel da Loucura em suas vidas. E o fato de ela tornar a vida mais leve e mais fácil de ser vivida.

Sobre a igreja e os religiosos a crítica é ampla e forte, o que, de acordo com o texto na contracapa do livro,  fez com que se tornasse "um grande influenciador da Reforma Protestante". Ademais, um primo comentou que o leu a pedido da faculdade de direito. Interessante saber. O autor faz menção à oratória, e o discurso da Loucura em toda a obra está ligado a ela. 

Eu comprei o livro, mas descobri que poderia tê-lo lido de graça. Você pode baixar a obra em .pdf diretamente no site Ebooks Brasil ou no site Domínio Público. São poucas páginas, apenas 121. Lê-se rapidamente!

Trechos interessantes:

"Seja loucura quanto quiserem; terão de reconhecer a sua coerência. (...) Eu, porém, sigo aquele velho ditado popular segundo o qual quem não tem quem o louve, louve-se a si mesmo." (pg. 14 e 15)

"E que é esta vida, se lhe tirarmos o prazer? Pode ainda chamar-se vida?" (pg. 21)

"É por mérito meu que os jovens são tão carentes de juízo; por isso estão sempre de bom humor. Eu mentiria, porém, se não admitisse que, tão logo crescem um pouco e começam a adquirir certa maturidade com a experiência e a educação, a beleza logo murcha, diminui a alegria, esmorece a graça, decresce o vigor. Quanto mais se distanciam de mim, menos vivem, até chegar aos que voltaram à infância, ou seja, a importuna velhice, odiosa não só aos outros, mas também a si mesma." (pg. 22)

"Age contra o bom-senso quem não sabe adaptar-se ao presente, quem não adota os usos correntes e se esquece até da regra de convívio - ou bebes ou vais embora - e gostaria que uma comédia não fosse mais uma comédia." (pg. 41)

"Voltando ao assunto: a Fortuna ama os imprudentes, os audaciosos, os que adotam o lema: 'o dado foi lançado'. A sabedoria, ao contrário, torna tímidas as pessoas; por isso normalmente vedes esses sábios empenhados em lutar contra a pobreza, a fome, a fumaça; esquecidos, sem prestígio, sem simpatias, ao passo que os loucos, repletos de dinheiro, obtêm os altos cargos do estado e, para resumir, prosperam em todos os sentidos." (pg. 100)

"Quem não sabe que quanto mais disseminado um bem, mais valioso é?" (pg. 102)

Esta edição: ROTTERDAM, Erasmo. Elogio da Loucura. 3a ed. São Paulo: Martin Claret, 2012. (Coleção A obra-prima de cada autor; 37).

Sunday, January 6, 2013

O ALIENISTA - Machado de Assis

"O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu: Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha idéia; nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da Terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente." (O Alienista, pg. 9)
É um livro muito interessante, de um autor brasileiro de grande importância. Muito me agradou a sua leitura! Este título já foi alvo de muitas provas vestibulares, porém não o havia lido até hoje. É um livro pequeno, apenas 34 páginas. Bom, cabe destacar que a versão que li obtive gratuitamente no site Domínio Público, onde estão disponibilizadas várias obras, de diferentes autores. Vale a pena conferir e baixar! Destaco que no site há diversas versões de uma mesma obra. Esta que li, em particular, aponta a UNAMA (Universidade da Amazônia) como entidade que disponibilizou. Não possui a capa que apresento acima, mas apenas o título do livro com a origem do arquivo (UNAMA). 

É uma obra muito agradável de ler, que apresenta um vocabulário, as vezes, rebuscado e que é escrita de forma peculiar, característica do autor e das obras da sua época. Por seu tamanho e enredo sua leitura é bem rápida. 

O texto nos conta a história do médico português Simão Bacamarte, que vive na cidade de Itaguaí e alí resolve estudar a loucura. Resolve que, para isso, deve-se construir um local onde todos os 'loucos' devem viver juntos: a Casa Verde. Ele a construiu com o apoio do governo, alegando a grande importância dos seus estudos para a ciência e a medicina. Com esse objetivo, confinou grande parte dos moradores da cidade na Casa Verde, e com o tempo suscitou a desconfiança e o desconforto da população que ainda restava fora de seus muros. Houve então uma revolução, chefiada por um barbeiro da cidade - Porfírio -, que além de derrubar a Casa Verde, queria obter poder político. Porém suas reais intenções vêm a tona quando conversa em particular com o alienista.

Após esse momento, que acabou não interferindo nas suas experiências, Simão Bacamarte chega a conclusão de que aqueles que estão na Casa Verde não são os verdadeiros loucos e, sim, aqueles que gozam de total equilíbrio mental. Ou seja, os que gozam de equilíbrio constante são os loucos! O médico então libera todos os que estavam abrigados na Casa Verde e busca novos moradores, com características distintas daquelas iniciais. 

Vale a pena ler! Trechos interessantes:

"Nada tenho que ver com a ciência; mas, se tantos homens em quem supomos são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?" (pg. 18)

"Daí em diante foi uma coleta desenfreada. Um homem não podia dar nascença ou curso à mais simples mentira do mundo, ainda daquelas que aproveitam ao inventor ou divulgador, que não fosse logo metido na Casa Verde. Tudo era loucura." (pg. 26)

"Um dia de manhã - dia em que a Câmara devia dar um grande baile, - a vila inteira ficou abalada com a notícia de que a própria esposa do alienista fora metida na Casa Verde. Ninguém acreditou; devia ser invenção de algum gaiato. E não era: era a verdade pura. D. Evarista fora recolhida às duas horas da noite. o Padre Lopes correu ao alienista e interrogou-o discretamente acerca do fato." (pg. 26)

"E cavando por aí abaixo, eis o resultado a que chegou: os cérebros bem organizados que ele acabava de curar, eram desequilibrados como os outros. Sim, dizia ele consigo, eu não posso ter a pretensão de haver-lhes incutido um sentimento ou uma faculdade nova; uma e outra coisa existiam no estado latente, mas existiam." (pg. 33)